quinta-feira, 6 de março de 2014


 

O efeito nefasto da Separação Conjugal.
                                          uma abordagem Psico-pedagógica

Por: Pedro Capingano

Devo dizer que o meu processo de crescimento passou por várias fases. Logicamente partindo dos principios estudados por Sigmund Freud, Jean Piaget ou mesmo Erik Erikson estudiosos que se debruçaram sobre os diversos estádios do processo do desenvolvimento da pessoa humana.
O meu crescimento teve muitos contornos. Hoje saliento que, foi graças a união de facto, jure, cumplicidade, companheirismo, amizade, amor e outros atributos que nortearam-me e fezeram dos meus progenitores os meus ídolos e referências que tornou-me no homem que sou hoje.

Tenho feito comigo mesmo são as seguintes perguntas:
  •  Que mudou hoje?
  • Porque da existencia de tantas separações de casais hoje em Angola?
  • Porque que os casamentos hoje tem uma duração efêmera?
  •  O que se passa com os casais de hoje?
  • Qual é a essência das grandes contradições nos lares de hoje?
  •  É comum ouvir hoje as pessoas dizerem que são cristão, intitulam-se como religiosos e que professam determinadas religiões mais então! o porque de tantos desentendimentos nas famílias?
  •  Qual é de facto o motivo da desagregação/desestruturação familiar?
  • A prática do adulterismo hoje na nossa sociedade é muito comum. Este exercício é praticado tanto pelo homem como pela mulher. O porque desta desonra das pessoas?
  • Estas e muitas outras perguntas de certeza teríamos por fazer
Antes de entrarmos na abordagem que nos propusemos fazer, convém conceituar separação.
Separação
Acto ou efeito de separar, partição, divisão, desunião. Afastamento, quebra de uma união íntima, ruptura do casamento.

§  O aparente alívio quando o casamento se desfaz.

 Quando a vivência conjugal torna-se insustentável é usual que o sentimento de separação apareça como o caminho para um alívio imediato. Infelizmente, em seguida, o casal se dá conta de que o aparente alívio não passa disso mesmo porque a partir daí, surgem novos problemas.

 A separação, como qualquer outra decisão na vida, precisa ser reflectida, compreendida, planeada com responsabilidade. Não cabe recorrer-se a ela de forma impulsiva em busca de alívio imediato. Os melhores caminhos, em geral, não são os mais fáceis.

 Lidar com certas perdas, com os aspectos bons que não se quer deixar e com uma certa ambivalência de sentimentos, não é simples. Além do que, mesmo para se separar, é preciso resolver os conflitos que atrapalham a vida conjugal, sobretudo se o casal tiver filhos. Afinal, não só terá que decidir sobre a divisão dos pertences, mas também sobre a educação dos filhos e outras questões relacionadas ao futuro de todos (ver significado da separação para compreender os seus efeitos).

Poucos casais em fase de separação conseguem tratar do processo com franqueza e colaboração. Não é raro os filhos presenciarem as brigas e serem utilizados como pombos-correio entre os pais, ou por vezes, serem até veículo de agressão de um para o outro, o que só os tornam mais confusos e psicologicamente instáveis.

 Se uma pessoa não compreende ao certo o que se passa e não supera as dificuldades de um casamento, pode acabar repetindo várias uniões de estrutura idêntica, como uma tentativa de resolver algo que na verdade é de seu próprio psiquismo, buscando desesperadamente uma solução através de sua contínua repetição na relação com diferentes cônjuges.

 Assim, conflitos precisam ser aconchegados, revividos e resolvidos e é nas experiencias do passado que o casal obterá as chaves de saída do labirinto, seja pela superação dos problemas do casamento, seja pelo amadurecimento da decisão de separação.

 Consequência da separação para os filhos.

 No caso de uma separação mal resolvida, os filhos acabam por sofrer consequências ruins, pois dificilmente o casal conseguirá falar da separação de forma clara, esclarecendo sobre como será dali para frente, assegurando o afecto de ambos e alterando o mínimo possivel o cotidiano dos filhos, num período que já impõe muitas mudanças.

Filhos envolvidos em brigas tenderão a tomar partido, a sentirem-se culpados e ameaçados de perderem intimidade com um dos pais, ou com ambos.

 
Os filhos são, com isso, as principais vítimas da falta de maturidade dos pais. Agrava-se a isto quando os mesmos são menores de idade.

Existem dados que mostram que a maioria das separações ocorre antes de 10 anos de casamento e que, por isso, a maioria dos separados têm filhos menores de idade.

 O comum seria ensinar aos respectivos filhos, habilidades necessárias para lidar com certos eventos decorrentes da separação dos pais.

 Partimos de exemplo, do adolescente que esta na fase de namorar mais que, passou grande parte de sua vida observando pais brigando ou constantemente vivendo em conflitos, provavelmente, não terá condições emocionais interna para tentar uma relação amorosa e afectuosa com a sua parceira. Sabemos que, nao oferemos aquilo que não obtivemos.

Separação não é apenas separar casas: implica em elaborar as experiências emocionais que rondam a vida afectiva do casal. Existem muitos casais que concluem a "separação de corpos", mas que se relacionam como se ainda estivessem completamente aprisionados um ao outro.

O divórcio, quando é o caso, deve ser preparado de forma madura, assumindo cada um dos cônjuges sua parte de responsabilidade nos sucessos e fracassos da relação, lidando com as perdas e seus lutos correspondentes, além de cultivar e preservar uma boa cooperação no que se refere à educação dos filhos.

 Devemos sempre Enfatizar a importância da relação conjugal para o desenvolvimento emocional dos filhos. E, finalmente, ressalta-se que o compromisso da terapia de casal não é com a manutenção ou a ruptura do casamento, mas com a saúde emocional dos casais e familiares.

De acordo com Terezinha Féres-Carneiro, dizia que todo fascínio e toda dificuldade de ser casal, reside no facto de o casal encerrar, ao mesmo tempo, na sua dinâmica, duas individualidades e uma conjugalidade, ou seja,:
 
·        De o casal conter dois sujeitos, dois desejos, duas inserções no mundo, duas percepções do mundo, duas histórias de vida, dois projectos de vida, duas identidades individuais.
 
·        Na realidade, após compromisso para a relaçãoo amorosa, devem ou convivem com uma conjugalidade, um desejo conjunto, uma história de vida conjugal, um projecto  de vida de casal, uma identidade conjugal.
 
·        Neste sentido,  Como ser dois sendo um? Como ser um sendo dois? Na lógica do casamento contemporâneo, um e um são três, na expressão de Philippe Caillé (1991). Para Caillé, cada casal cria seu modelo único de ser casal, que ele chama de "absoluto do casal", que define a existência conjugal e determina seus limites. A sua definição de casal, contém portanto os dois parceiros e seu "modelo único", seu absoluto.

·        E, eu acrescento. É inútil passarmos a vida a emitar/copiar outros casais. Os casais que estão constantemente (marido ou mulher) a querer ser como é o seu vizinho ou vizinha, ou então idealizam ou pensam que o Casal A ou B são mais felizes que eles, então este casamento a partida está condenado ao fracasso.

 Durkheim, dizia que, o casamento serve como  um lugar-comum da sociologia familiar para a  protecção  contra a anomia do indivíduo. O casamento tem como função social criar para o indivíduo uma determinada ordem, para que ele possa experimentar a vida com um certo sentido.

 Para determinados autores, a realidade do mundo é sustentada através do diálogo com pessoas significativas e o casamento ocupa um lugar privilegiado entre as relações significativas validadas pelos adultos.

 Esta validação assume o condão de compromisso de união de facto. Nos tempos passados e, de acordo com a nossa realidade, era proibido separar e ponto final. Ou seja, a separação conjugal era encarada como punição. As pessoas de forma intrínseca ou extrínseca  tinham receios de separarem-se porque, independentemente de quem tinha razão ou não, este casal era alvo de julgamento popular. Este facto também contribuiu para a manutenção dos casamentos e, fez de nos hoje, homens e mulheres que somos.

A função do Casamento e suas dimensões.

 O casamento tem por função a todos os níveis da sociedade ligar duas famílias, e permitir que elas se perpetuem.

 Nos tempos de hoje,  a manutenção do casamento tem sido difícil. Porque, os casais são muito influenciadas pelos valores do individualismo. Os casais angolanos hoje, fundamentalmente das grandes urbes, enfatizam mais a autonomia e a satisfação de cada cônjuge do que os laços de dependência entre eles.

Por outro lado, constituir um casal demanda da criação de uma zona comum de interacção, de uma identidade conjugal. Assim, o casal é confrontado, o tempo todo, por duas forças paradoxais a que a autora Terezinha Féres-Carneiro chama de "o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade". Ainda de acordo com a mesma autora, se por um lado os ideais individualistas estimulam a autonomia dos cônjuges, enfatizando que o casal deve sustentar o crescimento e o desenvolvimento de cada um, por outro, surge a necessidade de vivenciar a conjugalidade, a realidade comum do casal, os desejos e projectos conjugais.

A sociedade angolana esta firmar-se no valor de referencia derivado do "Eu", ou seja, é comum os casais na sua singularidade dizerem o meu carro, a minha casa, os meus filhos o meu emprego, a minha carreira, a minha projecção  etc. Quando na verdade duas pessoas unim-se e de acordo com os mandamentos bíblicos tornam-se num só. O meu deverá ser substituído pelo "Nosso".

Talvez é que, constata-se hoje na sociedade angolana e, confesso a minha dificuldade porque não fiz um estudo muito mais apurado para compreender porque é que, existem muitos homens e mulheres sobretudo trabalhando em empresas de referência (Bancos, Sonangol, Ministérios até mesmo Governantes etc) com um nível de vida média/alta mais no entanto ou são solteiras/solteiros ou pessoas que já passaram por união de facto, ou então, o seu modo de vida conjugal hoje não tem merecido referência positiva  para as gerações vindoura. Aos olhos das famílias vale sim apenas, e só apenas pelo seus Status social. Todos dizem que, os tempos passados foram melhores do que hoje. Mais no entanto naquela altura os mais velhos não tinham tanto poder econômico e os tais Status do que hoje e, no entanto, deram-nos melhores exemplos de vida dos que hoje pensam que os melhores cargo, dinheiro ou Status são mais importantes do que a família.

Também não consigo compreender que, devido aos seus compromissos profissionais, verifico por parte das pessoas sobretudo aquelas que tem cargos de gestão uma ambição desenfreada em fazer tudo pelo trabalho inclusive são capazes de passar mais tempo em viagens de trabalho, estão mais tempo nas respectivas empresas ou mesmo, esquecendo-se que a família é primazia para a manutenção desta motivação laboral. Dalai Lama dizia. "As pessoa fazem tudo por ganhar dinheiro. Acabam por gastar este mesmo dinheiro na saúde devido ao desgaste provocado pelo  trabalho".

Estranha-me verificar que, uma dada gestora/gestor ou pessoa anonima passa mais tempo preocupada com questões de indole individualista ou esta preocupado em ficar mais tempo no trabalho inclusive de forma velada ou não, obriga também com que outros colaboradores fiquem até altas horas no trabalho em detrimento dos cuidados que deviam prestar as suas famílias. Tornou-se comum os professores constatarem ausências dos pais nas reuniões  de escola dos seus filhos.

Giddens denomina de "amor confluente" aquele que presume uma igualdade no dar e receber afecto e se desenvolve a partir da intimidade reciproca. Ele conceitua o laço conjugal como "relacionamento puro" tendo em vista que este só se mantém se for capaz de proporcionar satisfações a ambos os parceiros.

Como é possível hoje este "amor confluente" na sociedade angolana se as pessoas estão a primar mais pelas suas singularidade, os seus Status pessoais, primasias pelos seus projectos individuais, promoções pessoais inclusive existe hoje, pouco diálogo entre casais. As pessoas vivem distantes dos seus locais de trabalho. Os casais saem muito cedo em carros diferentes para as suas jornadas laborais e, quando chegam estão totalmente cansados contribuindo desta forma para o pouco diálogo entre ambos.

De acordo com os dados da literatura internacional, embora não aprofundada por mim, apontam que o sexo extra-conjugal, excesso de bebida e dificuldades financeiras, estarem, quase sempre, presentes nos processos de separação conjugal.

Devemos considerar esta abordagem como um acto de reflexão. Convidando as pessoas para um estudo científico sobre o fenómeno.

Caruso (1968) afirma que, na separação há uma sentença de morte recíproca: o outro morre em vida dentro de mim e eu também morro na consciência do outro. Ele diferencia a dor vivenciada pelos amantes que se separam subitamente, daquela que ocorre na separação lenta que se segue ao "distanciamento mútuo".

Embora o divórcio/separação possa ser, às vezes, a melhor solução para um casal cujos membros não se consideram capazes de continuar tentando ultrapassar suas dificuldades, ele é sempre vivenciado como uma situação extremamente dolorosa e estressante.

A separação é ruptura provoca nos cônjuges sentimentos de fracasso, importância e perda, havendo aquilo que em psicologia consideramos como um luto a ser elaborado. O tempo de elaboração do luto pela separação é quase sempre maior do que aquele do luto por morte.

São os pais que chegam à decisão de se separarem e, em geral, os filhos reagem com raiva, medo, tristeza ou culpa. Estes sentimentos podem se alternar durante semanas ou meses após a separação. O importante, no processo de separação, é deixar os filhos fora do conflito conjugal. Quem se separa é o par amoroso, o casal conjugal. O casal parental continuará para sempre com as funções de cuidar, de proteger e de prover as necessidades materiais e afectivas dos filhos. É muito importante que isto possa ficar claro para eles.

É importantes reflectir hoje sobre, o fenômeno da delinquência, fraca assimilação acadêmica ou ainda com a falta de amor nas pessoas se não tem relação com a separação conjugal. Porque, de acordo com os estádios formulados por Freud, Piaget ou Erik Erikson é na infância onde se estabelecem os vínculos de afectividade. Ou seja quando na infância um indivíduo não recebe dos seus progenitores ou a ruptura destes abalam do ponto de vista psicológico a sua infância, o que a sociedade espera destas criança quando elas forem adultas?

Embora possamos dizer que a separação conjugal pode ter efeitos construtivos para os membros de uma família, sobretudo quando o preço para manter o casamento é a autodestruição e a destruição do outro.

É sempre importante enfatizar que, é muito mais importante a relevância da relação conjugal para o desenvolvimento emocional dos filhos. Daí, advogarmos que os casais deverão ter em conta sempre este factor como um projecto também de sociedade sã.

 Porque, a separação também leva toda a família a reestruturar os padrões de relacionamiento vigentes. Há um período de transição até que se atinja um novo patamar de organização. Alguns efeitos do divórcio aparecem rapidamente, outros perduram por muito tempo. Os casais deverão em ultima instância procurar a terapia familiar para evitar a separação.

Para concluir devo reafirmar que a separação, mais do que uma ferida no narcisismo da pessoa, afecta dolorosamente toda a comunidade e coloca em risco toda a estrutura que esta em volta da pessoa separada.

A pessoa separada vivencia momentos de solidão e, outros factores adversos. A solidão pode representar uma possibilidade de ficar consigo mesmo ou uma incapacidade de tolerar a indiferença do outro, manifestando-se tanto no isolamento voluntário como na busca compulsiva de companhia.
As pessoas quando estão a vivenciar estes momentos, geralmente tornam-se insensíveis, pouco colaborante, inclusive produzem pouco para as suas organizações e família.

Recomenda-se ao casal que se submete a uma psicoterapia conjunta, acabe reconstruindo o vínculo em novo patamar e dissolvendo conflitos. Se o mal-estar se vai, não sobra muito motivo para se separarem, além de que, abre-se o caminho para uma relação mais prazerosa.
Ganhando com isso, a família e a sociedade em geral.